quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Talvez, uma história de pescador




Começo com um talvez, porque nada é certo e explicável tão perfeitamente para que possamos nos deixar ultrapassar dos limites da complexidade humana. Certa vez, estávamos num barquinho conversando com simplicidade. Até porque naquela época não haveria outra forma de fazê-lo, sabendo que a pessoa e o momento não permitiam coisas muito grandiosas. Essa conversa não durou tempo suficiente para podermos nos expressar como queríamos, nem nos deixar aprofundar em laços de sentimentos exaltados, entretanto, a água do rio era quem comandava com destreza o nosso caminho.
Voltamos para casa, cada um tomou seu rumo com uma quantidade de peixes relevante muitas vezes desperdiçados por conta do desleixo, da falta de compreensão e preocupação em congela-los. Tínhamos sim equipamentos capazes de realizar tal procedimento, mas todas as vezes que chegava a seca passávamos fome. As pessoas pensam que era burrice nossa, mas é porque elas não compreendem. Todas as vezes que eu conto essa história a alguém, passo por louco juntamente com aquele alguém. O que ninguém entende é que mesmo congelando os peixes passaríamos fome, porque a fome na verdade não se limita na falta de alimento, quando alguém chega a ter escasso o alimento é porque está com fome de muitas outras coisas mais importantes.
A vida como ela é talvez seja como nossa pescaria. Há momentos em que pensamos que teremos júbilo eterno, e outros em que desperdiçamos o que é realmente necessário para nossa sobrevivência. Há vários fatores que limitam as condições de existência do ser, principalmente o medo. Eis uma capacidade que temos e a utilizamos em excesso.
O medo na verdade é uma capacidade de defesa do organismo. Sentimos medo naturalmente para conseguirmos produzir adrenalina suficiente para fugirmos de uma certa ocasião. Não sou cientista, nunca li nada a respeito. Só estou afirmando isso com base na minha observação, pois todo animal não racional se utiliza do medo para se defender, logo o homem sendo o animal que é não poderia se encaixar em outro espaço. Então vejo que temos medo durante os relacionamentos, as novas oportunidades, os novos eventos... ou seja, boa parte do nosso dia. Principalmente porque o que importa mesmo não é o que se pensa a respeito de si, contudo, o que o outro pensa de mim.
Temos essa dependência do medo, e quantas oportunidades perdemos por conta do mesmo. Essa ânsia de que há algo conspirando contra, ou de que vai dar errado, de que não sou capaz... As pessoas fazem uma propaganda tão negativa para si mesmas, que acabam no final não conseguindo alcançar seus objetivos. Não porque não eram capazes, sim porque elas não se deram a oportunidade de serem e fazerem o que estavam completamente prontas para viver.
Peixes apodrecidos não são comestíveis, e muitos outros atrativos repugnantes aparecem como urubus, larvas que podem ser vistos e fungos, bactérias... o cheiro é insuportável... tanto é que tínhamos um lugar bem distante de casa para jogá-los. Mas não adianta... até hoje eu consigo sentir aquele cheiro, é como se ainda fizesse parte de mim. Os peixes mortos estão em mim e caminharão comigo ao longo da estrada que tentei evitar.